26.8.13

Heroísmo de César Lacerda




É tanta coisa que circula naquela esteira rolante insana que é a timeline do Facebook, que não sei por qual motivo resolvi clicar – para minha sorte - na música do mineiro César Lacerda. Enquanto escrevo, já estou na segunda faixa, “Qualquer Pensamento Específico”, que sugere paisagens musicais tropicais e Djavan no coro que surge. Uma das características do disco Porquê da Voz, que César Lacerda lança agora sexta e sábado no Oi Futuro, no RJ, é equilibrar um trabalho com sofisticação harmônica, às vezes com passagens não convencionais, ao mesmo tempo em que se faz grudar, com agradável conforto. Sim, haverá momentos em que a harmonia vai te deixar um pouco com a orelha em pé, te tirando do eixo, e isso é ótimo, como é o caso da parte cê, lá no meio de “Herói”, a primeira que ouvi; porém é impossível não se deixar levar facilmente por “Manawê”, pérola afropopbrasileira que traz Carlos Posada com aquela identidade que lhe é natural, e “A Dois”, com participação de Lenine e laiás de Milton e Minas. Percebi na hora que o toque da banda era outro, na contramão da via preguiçosa dos que tentaram emular os Hermanos ao longo desses anos todos, na verdade, sem entender nada. Logo comecei a ficar envolvido na instrumentação, aí passou para a voz de César, meio metálica, cheia de melodia, com uma calma bonita de se ouvir, com traços de intérprete – embora as 12 faixas sejam todas dele. Sabia que estava de frente para algo novo (mesmo) e ainda estou descobrindo o disco, que traz essa outra bela e quase rara característica que é não te entregar tudo de uma vez – é um trabalho que não se abre de primeira, tem que fuçar. Tem o que procurar ali, é um álbum de segredos guardados. Como diz o César nesse papo que tivemos aí embaixo: é um disco de diferentes sabores.



De onde vem esse disco? O que te inspira?

Esse disco nasceu de uma certeza grande na minha vida: cantar é obsessivamente importante para mim, artisticamente e afetivamente. Estive sempre ligado a essa manifestação humana e, com o tempo, ganhou força dentro de mim a percepção de que coisas muito fortes e representativas da nossa existência estavam ligadas ao canto. Penso que as canções mantêm essa tradição lindíssima da oralidade. Cantamos, também, porque desejamos levar adiante certos "segredos" da existência. Fico pensando no mito da sereia, na exuberância sincera do canto feminino e na revelação do imaginário de um povo. Tudo presente numa manifestação tão singela e tão profundamente diletante: a canção. Tudo isso me move e me inspira. E foi fonte para compor as doze canções presentes nesse "Porquê da Voz".

Por que esse título?

Compus há mais ou menos quatro anos a canção "Porquê da Voz". A canção pretendia registrar algumas impressões que tinha sobre mim e sobre o meu tempo. Queria falar sobre o desejo e o mistério de cantar, sobre a importância política que enxergo no papel do Brasil como vetor da construção de uma nova humanidade, queria falar sobre a minha geração. Desde que fiz essa canção percebi que precisava reunir um grupo de mais outras canções e criar um disco cujo direcionamento viesse a partir dessa canção-base. O título, portanto, vem daí. Vem da possibilidade de reunir um grupo de canções, com leitura específica de arranjos, jeito de cantar e etc que, estimulados por um assunto, viesse a construir uma obra.

Falando das músicas. De onde vem Herói?

Fiz a música logo depois de ter uma conversa alongada com a minha grande amiga e parceira Luiza Brina. Ela me contava da leitura do livro "Carnavais, Malandros e Heróis" de Roberto da Mata. Motivado pelo assunto e pela possibilidade de compor uma canção que registrasse algumas noções sobre o arquétipo brasileiro, fiz "Herói". 

E Manawê?

"Manawê" teve a melodia feita numa viagem para a cidade mineira Tiradentes. Quando chegava à cidade, ainda no primeiro sol do dia, comecei a cantarolar a canção. Assim que tive oportunidade, peguei o violão e fiz a música. Por um viés menos crítico, a canção é bastante parecida com "Porquê da Voz". Fala desse mesmo ambiente e sobre os mesmos paradigmas.

Você ainda acredita na força e importância do álbum fechado? Da primeira à última música? Não como produto para se vender, mas como conceito e obra.

Acredito na potência disso, sim. Mas também compreendo que vivemos numa época muito dispersiva. E as canções ganham força de forma isolada.  Acho importante discutir o modelo, as formas de veiculação, o sentido de tudo. Esse meu disco pretende discutir essas canções de dentro pra fora; as canções são o alimento e a reflexão. Em conjunto, sobretudo. Mas não ignoro o diagnóstico da época: transitoriedade.

Ao ouvir o disco, é notável uma preocupação com a instrumentação e os arranjos, que não são preguiçosos, pelo contrário, são pensados. Fale um pouco disso. 

Quando montei a banda que me acompanha desde 2011 pensei nisso. Já sabia que queria músicos que tivessem uma compreensão menos usual da feitura de arranjos para as canções, mas que, ao mesmo tempo, tivessem noções da tradição. A banda é formada por Elisio Freitas (produtor musical do disco), um fluminense, gênio das cordas, ainda será festejado como o maior de nossa geração. Cláudio Lima, baiano, baterista singular com grande influência das músicas de tradição latina. E Marcelo Conti, pernambucano, grande compositor e baixista, célebre por entortar toda a música do mundo. Essa confluência de muitas influências e excelências foi o que gerou os diferentes sabores do disco.

O que está tocando no seu som hoje?

Ouço pouca música em casa. Gasto meu tempo lendo ou assistindo filmes.
Música pra mim é um evento que está, em grande parte, ligada à execução ao vivo. Tenho grande prazer em ir a shows, assistir todo o conjunto da performance.



Dá pra pegar o disco lá no site dele.



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