24.6.11

Sempre as Mesmas: Renata D`Elia


Chamei a Renata D'Elia para mais uma edição do Sempre as Mesmas aqui no blog. Renata é jornalista, escolhe sempre uma programação esperta no Facebook, e tem - como ela gosta de chamar - um blogue-groque chamado Magic on Sundays: lazy on a sunny afternoon. Falando nisso, corre lá que tem um texto bacana sobre o a-ha. Ela também é co-autora do livro "Os Dentes da Memória", que tem lançamento marcado agora em agosto. Você fica sabendo mais disso aqui.

Explicando mais uma vez: o Sempre as Mesmas, como o nome entrega, traz um time selecionado respondendo - praticamente - as mesmas perguntas. Outra edições você pesca ali no canto direito, na tag entrevistas. Tem gente fina lá. Mas chega de papo e vamos ver o que a Renata tem pra dizer sobre Radiohead, Beatles e Stones, divas do jazz e mais. Vambora.

Ah, escolhi essa do Chet Baker, que ela cita entre os obrigatórios de jazz, para ilustrar o post. Uma foto do Chet é sempre uma foto do Chet. Ou alguém discorda?


Nina, Ella, Billie ou Sarah?

Ella pela doçura. Billie pela capacidade de chegar aos umbrais. Sarah pelo suor em cada nota. Nina por ser pisciana e musicista completa. Cada deusa com seu mundo e seu espaço. (Ui!)

Miles Davis vale em todas as fases?

Todas as fases, todos os gêneros, todas as décadas.

Três discos de jazz obrigatórios.

Sou muito mais roqueira do que jazzística e pouco saio dos medalhões.

Miles Davis & Gil Evans – “Sketches Of Spain”
Thelonious Monk – “The Complete 1957 Riverside Recordings”. Embora a melhor versão de “Ruby My Dear”, pra mim, seja com o Charlie Rouse no sax.
Chet Baker - “Chet Baker Sings”, provavelmente o primeiro disco de jazz que ouvi

Beatles e Stones. O que um tem que o outro não?

Ah! Mas aí dá uma tese que geralmente chateia qualquer conversa. Digamos que os Beatles não tem um grande guitarrista junkie, como Keith Richards, nem um vocalista sexy, diabólico, e com a presença de palco de Mick Jagger, só pra simplificar. Os Stones, por sua vez, não tem a “nerdice” de Paul McCartney, nem um produtor com o George Martin, muito menos a intenção e a paciência de pensar num conceito como o do “Sgt. Peppers” ou gravar discos pops tão perfeitos e redondinhos. São mais blues, mais ásperos e pontiagudos. Não dá pra negar a genialidade e a influência pop dos Beatles, que eu adoro. Mas meu coraçãozinho bate mais forte pelos Rolling Stones.

Peter Gabriel ficou pelo Genesis ou soube voar também solo?

Não sou lá muito fã de Genesis. Peter Gabriel soube voar muito bem na carreira solo. O “Melt” é provavelmente meu preferido. Nos anos 1980, ele é um cara genial rodeado por gente genial como a Kate Bush, a Laurie Anderson, Tony Levin, Robert Fripp, o próprio Phil Collins. Daniel Lanois também trabalhou com ele. O “So” é disco pop perfeito. Só lamento contrariar os grandes intelectuais cabeçudos da crítica musical, mas não entendi o culto em torno do “Scratch My Back” embora tenha curtido algumas coisas do disco.

O que tem essa cena indie de Artic Monkeys, The Strokes, Franz Ferdinand, Arcade Fire, Bloc Party etc? É pra tanto barulho? Quem se salva?

Arctic Monkeys é uma fabricação da imprensa musical inglesa que foi reproduzida com histeria no Brasil e comprada sem critério pelos deslumbrados de sempre. Acho até que melhoraram, o tal do vocalista lançou até umas coisinhas bacanas, mas peraí, não é pra tanto. Os Strokes me soam repetitivos. Uma pena, já que o “Is This It” tem essa coisa pós-moderna (como alguns gostam de dizer) de soar como um disco de rock velho sendo muito novo e muito “fresh”. Não é datado. Já o BlocParty é uma grande choradeira, com duas ou três belas músicas em três discos. Sem contar que é muito feio achar que não pega nada fazer playback no terceiro mundo, né? Mesmo que seja na festa da MTV. Franz Ferdinand é talvez a mais regular das bandas dos anos 2000. Arcade Fire foi uma surpresa e tanto na década passada. Tem ali uma espécie de fauvismo musical, uma paleta de cores riquíssima, uma proposta de celebração bem sucedida. Não conseguiram ainda superar o “Funeral” e espero que não descambem pro messianismo chororô ou pela mania de grandeza que já estragou muita banda, mas é um belo grupo, que transgrediu a palidez anódina e a vibe de “sou feio e deprimido” do mundo indie. Só isso já seria um grande mérito pra eles e pro Franz Ferdinand.

Radiohead é isso tudo?

É uma bela banda, com coragem para experimentar e ir além. O lado ruim é esse flerte exagerado com o abstrato. Está virando um Dadá mal resolvido. Não tem como não achar que eles se levam a sério demais. Transparece ali uma obsessão com o iconoclasmo e não mais com a musicalidade, tem muito “som” e pouca “música”. Periga daqui a pouco o Thom Yorke gravar um disco roncando e todo mundo dizer que é genial. Principalmente se resolverem vender pelo preço que os fãs quiserem pagar. Estou com os carnívoros convictos: fodam-se as vacas sagradas!

Qual foi o álbum dos anos 2000?

Vamos nos fixar nas bandas aí de cima. O “Is This It”, dos Strokes, o “Funeral”, do Arcade Fire e o primeiro do Franz Ferdinand são os discos fundamentais da década.

Qual o lançamento de 2011 até agora?

Cedo, não? Certamente não ouvi tudo de bom que já está por aí. Fico num terreno conhecido, o último do REM. E com o novo da PJ Harvey.

O que você está ouvindo?

Pouca coisa nova, muita coisa velha. Gosto de uma banda britânica chamada Wild Beasts. Não tenho muita regra. Vou de Kate Bush a Serge Gainsbourg, Itamar Assumpção, King Crimson, muita coisa do David Sylvian, solo e com o Japan. Tenho ouvido muito o Paul McCartney com o Wings. E tem Rolling Stones e David Bowie, que quase nunca sai das minhas seleções.

Um comentário:

Renata D'Elia disse...

Fernando, thank you again pela sabatina. Só faltou trocar o nome do disco dos Strokes que aparece errado duas vezes por culpa minha, o certo é IS THIS IT? (THis is It é Michael Jackson ;-D, meu subconsciente me traiu)