8.5.11

Sempre as Mesmas: Sérgio Martins

Hoje o nosso convidado Sérgio Martins, que a gente lê toda semana nas páginas da VEJA falando de música, é quem dá as cartas no Sempre as Mesmas, o que é uma honra para o blog. Ele fala, claro, dos mesmos assuntos de sempre: Radiohead, Deep Purple, Miles Davis, Peter Gabriel, o que anda ouvindo e outras coisas. E é sempre bom lembrar que edições passadas com outros -- entre eles Arthur Dapieve e Rafael Teixeira, por exemplo -- você encontra ali do lado, na tag entrevista.

Escolhi Billie Holiday, que Sérgio cita como uma de suas favoritas, para ilustrar o post. Aliás, Billie tocou aqui no fim de semana e a coisa foi séria. Chego com atraso, mas depois eu falo dessa descoberta. Vamos lá?

Fernando Neumayer: Deep Purple do Gillan ou da dupla Coverdale/Hughes?

Sérgio Martins: Ian Gillan certamente gravou os melhores discos do Deep Purple: o melhor de estúdio, que foi o Machine Head, e o melhor ao vivo, que foi o Made in Japan. Mas de coração, gosto mais da formação com o David Coverdale e com o Glenn Hughes – este, para mim, foi o melhor vocalista do Deep Purple. Curto a guinada soul funk que a banda deu em discos como o Burn! (poxa, You Fool No One poderia virar um standard de soul) e Stormbringer. Sou ainda um dos poucos abnegados que adoram o Come Taste the Band, principalmente por causa da guitarra suingada do Tommy Bolin.

FN: Miles Davis vale em todas as fases?

SM: Miles Davis não tem erro. Todas as fases são sensacionais. Há uma ou outra mais discutível (os discos Tutu ou Doo Bop, por exemplo), mas não há como negar sua importância para o mundo da música. O mais legal, para mim, é que você pode começar a ouvir Miles Davis por qualquer disco que ele te dará um painel do que estava rolando no jazz naquele período. Bepop, fusion e até mesmo o jazz rap.

FN: E a Nina Simone?

SM: Cara, conheço muito pouco da Nina Simone. É uma falha que preciso corrigir. Mas as minhas vocalistas de jazz prediletas sempre foram a Billie Holiday, a Ella Fitzgerald, a Peggy Lee e a Anita O’Day. Mas um dia chegarei na Nina Simone.

FN: E o Milton Nascimento?

SM: Milton Nascimento tem sido responsabilizado pelas porcarias que gravou nas décadas de 1980 em diante. Mas sejamos justos, é um dos maiores cantores de MPB e o Clube da Esquina é discoteca básica (embora não seja um fã das letras do Fernando Brandt, sou mais o Ronaldo Bastos). Outra característica que merece destaque é a alta qualidade dos instrumentistas que acompanharam Milton nesse período – Toninho Horta, Roberto Silva... Era coisa fina, não? Não é à toa que a música dele é tão apreciada pelo pessoal do jazz e do pop americanos.

FN: Beatles e Stones. O que um tem que o outro não?

SM: No estúdio, os Beatles eram imbatíveis. Foram os primeiros a explorar todos os recursos que uma sessão de gravação podia proporcionar e criaram novas tecnologias. Eles também eram melhores compositores que os Rolling Stones – talento que eles foram aprimorando com o passar dos anos. Dizia-se que os Beatles ainda eram imbatíveis ao vivo durante o período em que tocavam no Cavern Club (infelizmente, nunca tive a chance de conferir). Os Rolling Stones, por seu turno, eram mais influenciados pelo blues e pelo rhythm’n’blues do que os Beatles. E quando Mick Jagger finalmente assumiu a persona de maior frontman do rock, ele elevou o grupo para outro patamar.

FN: Peter Gabriel ficou pelo Genesis ou soube voar também solo?

SM: Gosto até mais do Peter Gabriel em carreira solo do que nos tempos do Genesis. É um caso raro de artista que soube se reinventar. Ele começou emulando a sonoridade de sua antiga banda (ainda que tenha trazido o Robert Fripp para tocar nos discos dele), flertou com a world music, foi pop quando lhe era conveniente (So, um discaço!) e há pouco tempo lançou um ótimo disco de covers. O Phil Collins também tem seus acertos no Genesis, como o A Trick of the Tail e o ao vivo Seconds Out.

FN: O que tem essa cena indie de Artic Monkeys, The Strokes, Franz Ferdinand, Bloc Party etc? É pra tanto barulho? Quem se salva?

SM: Se eu soubesse o segredo, mudaria para Londres e montaria uma banda ah ah ah! Gosto de algumas coisas, mas em geral sinto falta de um disco que me arrebate. Tem umas três ou quatro canções que me agradam e olhe lá.

FN: Da nova geração de cantoras do Brasil, quem se destaca?

SM: Luciana Alves, que canta nos discos de Chico Pinheiro, e Verônica Ferriani. São afinadas e passam emoção em cada nota. Há outras muito boas, mas o nível dessas meninas é superior.

FN: Radiohead é isso tudo?

SM: Definitivamente, Radiohead é uma banda superior aos seus pares. Se a gente lembrar que eles surgiram no mesmo período em que Oasis e Blur, chega-se à conclusão que estão muito à frente do rock inglês produzido nos últimos anos. Mas não sou daqueles que enxergam genialidade em tudo que fazem, às vezes acho que há um esforço excessivo em parecerem excêntricos. Jonny Greenwood, guitarrista, é para mim o cérebro do grupo – e se sai melhor que o Thom Yorke. Aliás, acho o Damon Albarn (Gorillaz, Blur, The Good The Bad & the Queen) mais criativo que o Thom Yorke.

FN: O que você está ouvindo?

SM: Fitz and the Tantrums, um grupo soul retro; a grande vocalista Sharon Jones e seus Dap-Kings; muitos discos do Dr. John (em especial os cinco primeiros, o Dr. John Plays Mac Rebenack e o último, que é muito legal); os pianistas Vijay Iyer, Brad Mehldau e Bill Charlap e sinfonias de Bruckner e Beethoven.

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