15.4.11

Sempre as mesmas: Ricardo Seelig

Quem está hoje na Sempre as Mesmas é o Ricardo Seelig, do excelente blog Collector's Room. O entrevistão segue abaixo e a imagem é do Head Hunters, citado pelo Ricardo como essencial. É um discaço do Herbie Hancock, que, além de um som de primeira linha, tem essa capa marcante. Pra quem está sintonizando agora: a Sempre as Mesmas já teve edição com o Dapieve e com o Regis Tadeu. É só clicar, e não deixe de passar no blog do Ricardo. Vambora.

Fernando Neumayer: Deep Purple do Gillan ou da dupla Coverdale/Hughes?
Ricardo Seelig: Para qualquer pessoa como eu, que cresceu ouvindo heavy metal e hard rock, a MK II do Deep Purple teve uma importância danada. Lembro perfeitamente da primeira vez que ouvi o Made in Japan e fiquei maluco com o que os caras faziam ao vivo. Mas, nos últimos anos, tenho redescoberto a fase com David Coverdale e Glenn Hughes, que sempre achei meio subestimada pelos fãs. E, atualmente, ela é a minha preferida, com destaque para o álbum Stormbringer e, principalmente, para o Come Taste the Band, que é um disco excelente mas passa batido por muita gente por não contar com Blackmore.

FN: Van Halen: Sammy ou Dave?
RS: É mais ou menos a mesma situação do Deep Purple: quando comecei a ouvir música, curtia mais a fase com o David Lee Roth. Atualmente, a minha preferida, muitos quilômetros à frente, é a com Sammy Hagar, principalmente os álbuns 5150 e OU812. O som do Van Halen ficou bem diferente com Hagar, mais adulto e menos festeiro. Além disso, adoro a voz do Sammy Hagar, então tem um fator afetivo aí na história que desequilibra o confronto.

FN: Miles Davis vale em todas as fases?
RS: Não. Apesar de achar Miles um gênio, ser um grande fã e colecionar seus discos, tem períodos dele que são bem difíceis de digerir e não descem para qualquer um. A fase oitentista e alguns discos dos anos 70 se enquadram nessas características. Mas, pra falar a verdade, acho que toda pessoa que gosta de música deveria se aventurar pela obra de Miles Davis, porque, no mínimo, se tornará um ouvinte melhor e compreenderá mais a música como um todo ao ouvir seus discos.

FN: Beatles e Stones. O que um tem que o outro não?
RS: Os Beatles tem a sofisticação e o apelo pop. Os Stones tem a energia e os dois pés fincados no blues. Entre os dois, fico com os Beatles, que mudaram tudo, revolucionaram o mundo e são responsáveis pelo modo como a música pop é vista e consumida até hoje. Não tem comparação, pra falar a verdade.

FN: Peter Gabriel ficou pelo Genesis ou soube voar também solo?
RS: Não sou um fã do Genesis e nem da carreira solo do Peter Gabriel. Pra falar a verdade, o rock progressivo não me desce muito bem. Mas, se formos comparar o Genesis de Phil Collins com a carreira solo de Peter Gabriel, o vocalista ganha de goleada de sua ex-banda.

FN: O que tem essa cena indie de Arctic Monkeys, The Strokes, Franz Ferdinand, Bloc Party, Arcade Fire, etc? É pra tanto barulho? Quem se salva?
RS: É pra muito barulho, sim! Arcade Fire é uma banda genial, inovadora e pra lá de criativa. Strokes influenciou todo o rock dos anos 2000 com o seu primeiro disco. Os Arctic Monkeys cresceram a olhos visto de um álbum para o outro, e estão melhores a cada ano. Franz Ferdinand não me agrada muito, e Bloc Party é muito sem vergonha, não vale nem o play.

FN: Radiohead é isso tudo?
RS: Não, não é. Na verdade, já foi tudo isso, mas, atualmente, se perdeu na pretensão de soar sempre inovador e diferente. O último disco, The King of Limbs, é uma colagem sem pé nem cabeça onde uma ou duas músicas se salvam. Se colocarem os pés no chão, podem voltar a ser o que foram um dia. Qual foi o álbum dos anos 2000? Sky Blue Sky, do Wilco. Um dos melhores discos que ouvi na minha vida!

FN: Quais são os seus três discos de jazz obrigatórios?
RS: Time Out do Dave Brubeck Quartet, Kind of Blue do Miles Davis e Head Hunters (capa acima) do Herbie Hancock.

FN: Qual o lançamento de 2011 até agora?
RS: 2011 está sendo um grande ano, cheio de ótimos discos. Vários merecem destaque, como o Forevermore do Whitesnake, o Broken Heart Syndrome do Voodoo Circle, o último do R.E.M., o debut do Beady Eye, o The People's Keys do Bright Eyes, o Go-Go Boots do Drive-By Truckers, PJ Harvey e seu Let England Shake, e, em um nível um pouco mais acima que esses, o 21 da Adele, o The King is Dead do Decemberists e o belíssimo Kiss Each Other Clean do Iron & Wine. Agora, pra mim, ninguém bateu ainda – e vai ser difícil superar – o sensacional Kaputt do Destroyer.

FN: O que você está ouvindo?
RS: Outro grande álbum lançado em 2011: Blood Pressures, do The Kills.

Um comentário:

Bárbara disse...

Gostei da entrevista! Parabéns, Fernando, mandou bem nas perguntas! Escolheu bem o entrevistado. Leio coisas do Seelig sempre que posso, pois acho o cara coerente, sensato e sabe escrever - coisa que está cada vez mais rara na internet. Além disso a proposta do Collector's Room é rara: reunir conteúdo sobre boa música, seja qual for o estilo, e sem preconceito. E ainda tem as matérias com os colecionadores!