8.10.10

Sempre as mesmas: Arthur Dapieve

Tempo atrás pintou a ideia de fazer entrevistas com (praticamente) as mesmas perguntas para diferentes pessoas, de tom totalmente informal, quase mesa de bar entre amigos. O objetivo é simples: ver o que pessoas diferentes acham dos mesmos assuntos; que aqui, muitas vezes, serão coisas que admiro (Peter Gabriel? Nina? Milton?) ou questões minhas (O que tem o Radiohead?, por exemplo).

Sendo assim, mandei uma primeira leva para o Arthur Dapieve, jornalista e colunista d'O Globo que acompanho, e ele topou. As respostas foram exatamente no espírito que eu imaginava para a coluna, que vou chamar de "Sempre as mesmas". Segue, então, a primeira, mas não sei como será a frequência. Semanal, mensal, anual, não importa muito. Pretendo também trocar uma pergunta ou outra com o tempo e dependendo do entrevistado. Ou seja, ao mesmo tempo algo formatado e solto.

Obrigado, Arthur Dapieve, pelas respostas.

(na foto: Roberta Sá - citada na entrevista -, escolhida para ilustrar o post pela boa cantora que é e por outros motivos óbvios)

Fernando Neumayer: Deep Purple do Gillan ou da dupla Coverdale/Hughes?

Arthur Dapieve: Boa pergunta. Responder a opção B soa meio como heresia, né? Mas vamos à fogueira, então. Gosto mais da voz do Coverdale, mais grave do que da do Gillan. E o Hughes fez bonito também no Trapeze, embora eu curta muito o Roger Glover no baixo.


FN: Miles Davis vale em todas as fases?

AP: Sim, todas as fases em que ele se meteu e todas as fases em que se meteria caso tivesse vivido um pouco mais... Jazz-rap, jazz-eletrônica...

FN: E a Nina Simone?

AP: Não. A voz pouco mudou, mas o começo da carreira é espetacular, por causa dos arranjos e do repertório. Depois, ela virou middle of the road, muzak, sem a alma dos primeiros tempos.

FN: E o Milton Nascimento?

AP: Mais ou menos a mesma coisa que a Nina. A voz sempre foi estupenda, mas o começo, até o Clube de Esquina, é uma junção particularmente feliz de repertório e arranjo. Depois, a impressão que tenho é que o Milton ficou prisioneiro da própria voz rara, sendo ouvido pelos gringos como se fosse um freak.

FN: Beatles e Stones. O que um tem que o outro não?

AP: Os Beatles tinham o dom da criatividade infinita (enquanto durou). Os Stones têm o dom da vida eterna. Se fôssemos escolher entre os dons, qual escolheríamos?

FN: Peter Gabriel ficou pelo Genesis ou soube voar também solo?

AP: O melhor ficou no Genesis, sem dúvida. Mas há coisa boa no solo, como, por exemplo, “Here comes the flood”. Além disso, ele foi um visionário que deu força para a “world music” na linda trilha de “A última tentação de Cristo”, do Scorsese, batizada “Passion”.

FN: O que tem essa cena indie de Artic Monkeys, The Strokes, Franz Ferdinand, Bloc Party etc? É pra tanto barulho? Quem se salva?

AP: Olha, tendo 46 anos no lombo, já ouvi muita coisa parecida antes. Stones, Stone Roses, Gang of Four, Clash, Mas não menosprezo os mais jovens, porque reinventar a roda pode ser uma arte, sim. Gosto de todos os nomes que você mencionou. Só que os meus favoritos no meio do tal “angular rock” são os Futureheads. Furiosos, urgentes.

FN: Da nova geração de cantoras do Brasil, quem se destaca?

AP: Gosto muito da paranaense Lorenza Pozza. Tem voz, presença, inteligência. E foge do rame-rame do sambinha light. Outra que foge bem disso é a potiguar acariocada Roberta Sá (foto).

FN: Radiohead é isso tudo? AP: Isso tudo e muito mais! Em mim, com “Ok computer”, eles reviveram a sensação de escutar Pink Floyd ou Clash pela primeira vez. Não é pouco, acredite.

FN: O que você está ouvindo?

AP: Neste preciso momento, “Richard Ashcroft & The United Nations of Sound”. Bonito, naquela onda sinfônica que deu bons momentos ao Verve. De maneira geral, tenho escutado muita música clássica, inclusive de autores contemporâneos, como o Lukas Foss, que morreu ano passado, aos 86 anos.

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